O que eu mais queria nesse momento? Poder perguntar a sua opinião sobre o vídeo que estou vendo. Não, eu não sou algum tipo de solitária (apesar de me sentir assim algumas vezes), mas é apenas em você que eu encontraria a melhor e mais empolgada crítica sobre "I dreamed a dream". Ficariamos horas a fio conversando sobre como os musicais são impressionantes e o violino te fascina. Então, inadvertidamente, eu iria sugerir que fossemos ao cinema assistir Los Miserables, mas, quase que automaticamente eu me arrependeria porque você possui o péssimo hábito de nunca parecer interessado em ver qualquer ser humano. Com o orgulho ferido eu me despediria, fingindo nada ter acontecido e ficaria remoendo o ocorrido por um tempo ainda maior do que durou a conversa, fazendo juras íntimas de que nunca mais te chamaria para nada, mesmo sabendo que você, no momento, é minha maior fraqueza porque não existe ego, amor próprio ou ofensa pessoal que me impeçam de querer estar ao seu lado e é exatamente isso que mais me amedronta. Eu deixo de me reconhecer e de ser a protagonista da minha vida, para atuar no seu tablado. Uma peça repleta de indiferença, frieza e impessoalidade, totalmente dissociada das operas e musicais que costumávamos discutir.
Seus antagonismos me deixam esquizofrênica. Deixamos de nos falar diariamente e sua palavra favorita passou a ser "hum" ou "hahaha" para ser simpático. A nossa amizade que era tão intensa e companheira, tornou-se leviana e esporádica. Acabamos transformando tudo em uma amizade colorida, cujas únicas cores apresentadas são os tons de cinza, bege e marrom. Cores sem graça, sem densidade, sem cor.
O frio na barriga deixou de ser agradavelmente desconcertante e todas as vezes que eu te vejo on line sinto vontade de suspender meu face, te bloquear, me excluir de mim mesma. Por que você está aí se não está falando comigo? Quem é a nova dona da sua atenção e afeto? Com quem você passa suas horas insones?
Em meu limbo silencioso, prometo-me sair das redes sociais antes de você, com o intuito de resguardar o resto do meu amor próprio, mas me traio olhando a lista on line e sinto um baque desagradável quando percebo que você foi dormir sem me desejar uma boa noite. Recrimino-me cem vezes antes de dormir por desejar sua atenção.
Passo a ser ríspida e seca quando você me procura para saber o dia em que recomeçam as aulas. Como pode uma amizade como a nossa se reduzir a uma conversa sobre trivialidades? Será que é apenas isso que nos une? O nada. Sinto-me ofendida a cada ausência.
Traio-me ao tentar te justificar a mim mesma: "ele é assim com todo mundo. É da personalidade dele ser eremita." Contento-me com pouco, migalhas de uma pessoa que mendigo diariamente. O que está acontecendo com esta leonina aqui? Torno-me uma vergonha para o meu próprio signo e não consigo admitir para mim mesma que estou nutrindo silenciosamente todos esses sentimentos. Não sei como lidar com tudo isso.
Percebo que desabafar com a minha melhor amiga não funciona quando não consigo pronunciar certas coisas. Sim, é amor. Não, eu não me permito admitir. Como pode ele não me amar? Como poderia ele me amar? Sou cheia de traumas, defeitos e limitações. Será que eu namoraria comigo? Hoje tenho minhas dúvidas. Obrigo-me a encontrar distrações que me impeçam pensar detidamente a respeito.
Quando tudo começou? Percebi sua presença depois de anos de faculdade. O porquê eu não consigo lembrar, talvez em decorrência de algum encontro planetário peculiar.Te adicionei no orkut em um gesto de ousadia despretensiosa. Você me aceitou no ato e deixou claro seu interesse por algumas amigas minhas. Acho que tudo isso está errado desde o inicio, mas eu não me importava e pagava de cupido. Aos poucos você me envolveu em sua rede de contos, poemas e versos. Observei-me perdida em meio a tantos personagens, e desejei o amor de um deles. Você me fazia sentir especial e querida, mesmo enquanto me perguntava o nome e o estado civil de algumas colegas minhas e ficava com garotas na minha frente. Não havia problema, afinal eramos bons amigos. Será que eramos? Uma vez você me disse que sabia exatamente como me irritar, ah, e você sabe mesmo!
Os elogios à outras mulheres, a forma quase mal educada de me tratar e a indiferença diária não combinam com o seu olhar quando estamos só nós dois, com as suas mãos e lábios. Seria mais fácil se a indiferença fosse in totum. Por que eu sempre encontro uma desculpa para irmos a sua casa de madrugada e você sempre é tão receptivo? Por que sempre chove quando as coisas saem do controle? Por que eu não quero ir embora e nem você quer que eu vá?
Tenho uma certeza maior a cada dia que a resposta para todas essas perguntas é: Garota, você é uma grande idiota que possui tempo de menos, problemas de mais e necessidades emocionais não supridas. Ele está vivendo a vida dele e não lembra da sua existência então, porque você desperdiça tanto tempo pensando nele, tentando desvendar os "hums" que ele emana.
Você nunca me prometeu nada, mas me acostumou com a sua presença e é o responsável pelo sentimento que criou em mim. Você não tem o direito de me fazer amá-lo e não me oferecer amor em troca. Simplesmente não é justo.
Refaço a promessa de que não procurarei desculpas para visitá-lo, contendo toda a saudade que teima em escapar dos meus olhos. Agradeço por ser noite.
Faz frio aqui no sótão, mas sinto o crepitar do fogo na lareira.